Via Nova Race Uma pedalada histórica na Via Nova... Num amplo desejo de conhecer a nossa história e cultura, unindo desporto à preservação da natureza, nasceu uma ideia simples: Via Nova Race. De 15 a 18 de Outubro de 2009, de BTT, vamos percorrer percursos dos 318 km da antiga estrada romana que ligava Braga a Astorga. Quatro dias, quatro etapas, um momento único, inesquecível, irrepetível. Passando em microclimas diferenciados, de bosque, montanha, por trilhos de terra, de pedra, percursos de água, sabemos que o percurso é único. Para participar na Via Nova Race é preciso resistência, habilidade, força física, espírito de aventura e vontade de conhecer e percorrer de BTT as vias dos nossos antepassados. Por um percurso diversificado, subindo serras até aos quase dois mil metros, descendo trilhos abruptos, passando em longo vales, o desafio é único. Com um acompanhamento constante por parte da organização em todos os domínios, queremos criar momentos fantásticos para a prática de BTT. Por uma das vias principais do Império Romano o nosso desejo também é aproximar o BTT de paisagens naturais únicas, da biodiversidade, das águas termais, da riqueza monumental de mosteiros e castelos, da gastronomia, enfim, da cultura, da história, da Via Nova... Com a intensificação da actividade mineira e desenvolvimento global da economia projecta-se e concretiza-se a abertura de uma nova estrada entre Bracara e Asturica. Com o nome Via Nova e que será citada numa das várias edições do Itinerário de Antonino como a XVIII. A Via Nova, nalguns traçados, constitui um monumento excepcional, um património científico, cultural, pedagógico e turístico único. A possibilidade de percorrer o caminho romano, ao longo de quilómetros, quase sem interrupções, os extensos troços de calçada, a quantidade invulgar de miliários, as ruínas de pontes sobre rios caudalosos, as pedreiras de onde se extraíam os miliários, o contexto paisagístico em que se insere, a magia dos espaços que nos envolvem formam um recurso notável. É com base nestes elementos que surge a ideia de conhecer este magnífico e único percurso. E como? De BTT, em etapas, unindo a cultura e a história ao desporto. No conjunto da rede viária do extenso império romano, o caminho entre Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga, província de Léon), por Bergidum Flavium (Ponferrada), constitui um testemunho excepcional de uma época em que a Europa era um espaço comum. A construção da Via Nova, na segunda metade do século I d.C. reforçou a malha viária, permitindo o reordenamento territorial. O traçado da Via Nova foi cuidadosamente planeado por arquitectos, engenheiros e pelos gromatici, os topógrafos que, apesar dos utensílios rudimentares, já calculavam com exactidão as distâncias, os declives. Esta via foi construída de tal modo que, apesar de cruzar um espaço montanhoso com serras que chegam aos dois mil metros, só em alguns tramos, pouco extensos, alcança 900 metros. O granito e o xisto, que formam o substrato rochoso ao longo de grande parte do traçado da via, foram utilizados de forma abundante nos pavimentos lajeados, nos muros de suporte, nas obras de arte, nos miliários. A rede viária romana sustentava o funcionamento do Cursus Publicus, essencial ao bom governo do vasto império romano. Os três pilares do Cursus Publicus eram as mansiones (locais de descanso, onde os viandantes podiam comer, dormir, tomar banho e abastecer-se para prosseguir a viagem), as mutationes (estações de muda, onde se podia trocar de cavalo; situados à beira da via, estes equipamentos asseguravam o correio, a velocidade dos mensageiros, o trânsito de militares, de funcionários e de todos os caminhantes que, pelos mais variados motivos, percorriam as estradas) e os miliários (balizavam a via, assinalando as distâncias). Pedalar pelo tempo Percorrer a Via Nova entre Amares e Lobios é regressar a um tempo perdido, em que os meios de transportes e o ritmo de vida eram diferentes. Devido ao bom estado de conservação é possível percorrer, ao longo da estrada romana, quase sem interrupções, perto de 40 km, o que é raro, tanto em Portugal como em Espanha. A Via Nova corta em diagonal o triângulo político-administrativo e viário estabelecido por Augusto, com vértices nas três cidades: Bracara, Lucus e Asturica. A Via Nova cruza o interior montanhoso da Callaecia, bem como o núcleo central das explorações auríferas, a zona do Bierzo, onde se localiza Bergidum Flavium, uma das mansiones, e o complexo mineiro de "Las Médulas", classificado como Património Mundial. Da cidade de Braga, a Via Nova descia até ao rio Cávado, que transpunha no sítio da Barca de Ancêde. Depois, rumava a norte e trepava pelos últimos contrafortes da serra de Santa Isabel, ou da Abadia. Abandonava, assim, o vale do Cávado, prosseguindo pelas vertentes meridionais do vale do rio Homem até Covide, onde entrava na serra do Gerês. Atravessava a veiga de S. João de Campo e retomava o vale do rio Homem até à Portela. A partir daqui, descia pelo vale de rio Caldo, onde se situava a mansio de Aquae Originis, continuando até ao vale do Lima que transpunha a jusante de Bande (mansio de Aquis Querquernnis). Depois prosseguia para nordeste, ao longo da margem direita daquele rio, pela região da Baixa Limia até à Lagoa de Antelas, zona dominada pelo pequeno relevo onde ficava a mansio de Aquis Geminis e onde hoje se observam os restos do castelo de Sandiás. Neste ponto rumava para norte até ao vale do rio Arnoya, onde se localiza a mansio Salientibus. Retomava a direcção nordeste, trepando até ao altiplano de Trives, entrando assim no seu percurso mais acidentado. Nesta zona situavam-se duas mansiones: Praesidio (Burgo); Nemetobriga (Póboa de Trives). Em seguida cruzava, sucessivamente, os rios Návea, Bibei, onde se conserva intacta uma ponte romana, e o Sil, em Cigarrosa (mansio Foro Gigurrorum). Daqui subia para nordeste, ao longo do vale do rio Sil e do seu afluente Entoma, atingindo, assim, a rica zona mineira de Bierzo (Bergidum Flavium). Daí cruzava os Montes de León, alcançando, deste modo, Asturica Augusta. Num percurso de 215 milhas, 318 quilómetros, a Via Nova atravessava diferentes regiões naturais e diversas bacias hidrográficas. A herança cultural, na evolução actual da sociedade ocidental, desempenha um papel cada vez mais relevante no crescimento económico dos povos. Por esta razão, as acções que incidem directamente no património e naquilo que nos últimos anos se designou por mais-valia cultural têm uma incidência fundamental no desenvolvimento turístico, para que a rentabilidade associada a esta actividade, para além de promover um movimento económico, ajude, entre outras coisas, a agregação de recursos para a conservação e manutenção desse mesmo legado. A nova via para BTT O nome popular de Via Nova explica-se pelo facto de ter sido uma das últimas rotas de comunicação construídas no noroeste peninsular. A Via Nova constitui um itinerário geográfico que entrelaça, de forma transversal - do sudoeste ao nordeste -, toda a província, através de uma franja que é possível converter numa rota dividida em jornadas. Estas jornadas podem ser atravessadas, neste caso, de BTT e cobrem oito comarcas da geografia transfronteiriça, conseguindo-se que o betetista, para além de fazer um percurso literal pela história em alguns troços e poder gozar da possibilidade de andar por percursos originais da via, leve consigo uma imagem praticamente global da geografia, da natureza, do património, dos costumes e das tradições do território de referência. De grande beleza, a Via Nova goza de uma riqueza meio ambiental diversificada, com pontos de elevado interesse turístico, paisagístico e biológico, e com uma ampla variedade de recursos patrimoniais de elevada atractividade. Possui um potencial económico e turístico e uma riqueza também excelsa de produtos autóctones, de que são exemplo o vinho, a castanha, e o artesanato, aliados a um conjunto de tradições de carácter festivo de grande importância, como o Entrudo ou as festas etnográficas e históricas de elevada singularidade. Dos 318 km da via, cerca de 50 km são pertença do actual território português, uma grande parte deles dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde se encontra o denominado caminho da "Geira", excelentemente conservado, com dezenas de miliários ainda colocados ao longo do trajecto. Segue a via pelo vale do rio Caldo até se encontrar com o Lima. Estamos em pleno Parque Natural do Xurés. Nas terras de Celanova pode-se visitar o Mosteiro de San Salvador. Nas terras de Limia a Torre da Forxa e Aldeia de Congostro. No Alto Arnoia, o parque etnográfico de Allariz e Castillo de Maceda. As Terras de Caldelas, onde a Via Nova se encontra com a Ribeira Sacra, é uma das regiões europeias com maior concentração de mosteiros por quilómetro quadrado. Nas Montanhas de Trives temos os Miliarios de San Xoán de Rio. Em Valdeorras, monumentos sem fim. Aqui, deixamos pequenas ideias de um percurso que terá mais do que palavras. Vamos ver, estar, percorrer pela Via Nova, de BTT, as imagens que pensamos já não existirem. O desafio está lançado, a ideia já está em movimento, de BTT... contamos com a vossa presença... na Via Nova Race. Eugénio Pinto |